Capítulo 2

TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao


Interpretação de Janine Milward


A tradução dos Capítulos do Tao Te Ching foi realizada por Wu Jyh Cherng,
do chinês para o português
e foi primeiramente publicada pela Editora Ursa Maior
e hoje é publicada pela Editora Mauad, São Paulo.

Na Editora Mauad, São Paulo, Brasil,
encontra-se  a realização da publicação
das interpretações de Wu Jyh Cherng
acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao Tse, o Tao Te Ching



Capítulo 2

Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem

A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro

Portanto
O Homem Sagrado  realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam


Interpretação

Janine Milward

Neste Capítulo, Lao Tse nos fala sobre uma variedade de temas e/ou questões fundamentais no Taoísmo: o não-julgamento, a impermanência ou eterna mutação, a não-ação, a não-palavra; O Te, A Virtude realizada pelo Homem em relação à duração e à constância, ao apego e ao não-apego, ao corpo físico e ao corpo espiritual, à mortalidade e à imortalidade... em seu Caminho rumo ao seu Tao.

A primeira estrofe desse Poema, nos inicia na Virtude a ser praticada em relação ao julgamento de tudo o que existe entre o Céu e a Terra e que pode ser percebido e apreendido pelo Homem: o não-julgamento.

Esse não-julgamento deve estar sempre presente em nossas vidas – o que é na verdade bastante difícil na medida que, socialmente e culturalmente e também a nível comportamental desde nosso ninho familiar, o que sempre sobrevem é o julgamento e não o não-julgamento... Mas Lao Tse todo o tempo nos ensina a nos flagrarmos a cada vez em que colocamos nosso julgamento em pauta.

A cada vez que expiramos um julgamento sobre qualquer coisa, cristalizamos esse julgamento de forma quase irreversível e portanto, primeiramente, estamos desrespeitando a opinião do resto dos seres do universo que podem ter outro julgamento sobre a mesma questão.... E em segundo lugar, também Lao Tse nos alerta sobre o julgamento da verdade.... O que é a verdade e quem pode julgar qualquer coisa sob sua própria ótica classificando-a como verdade? Isso fica bem claro quando ele nos diz:

Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem
É interessante que Lao Tse tenha começado esse Capítulo versando sobre o julgamento e o não-julgamento... e tenha terminado o mesmo versando sobre a mortalidade e a imortalidade... Simplesmente porque os dois primeiros itens são totalmente ligados aos dois últimos, respectivamente. Com isso, Lao Tse, ao longo de toda sua obra, vem nos dizendo que a grande Virtude do Tao é a Humildade, a Simplicidade. Esses conceitos sobre humildade e simplicidade pouco se encaixam de forma adequada à nossa sociedade atual bem como já não se encaixava na sociedade de outrora, ainda no tempo de Lao Tse, como antes dele.

Dessa maneira, o Mestre todo o tempo se mantém nos alertando para o fato de que dirigimos nosso julgamento para as questões manifestadas como somente aquilo que existe no universo e que, portanto, aparentemente, são as únicas a merecerem algum grau de importância.... Ledo engano: todas essas questões são apenas superficiais, mutáveis, pertencendo à duração e não à constância do universo. E assim sendo, terminam, acabam, mudam conforme a correnteza do momento, a moda do momento, a necessidade política e social do momento – são apenas duráveis e não constantes, são apenas passageiras e não eternas.... Portanto, não merecem qualquer julgamento. O melhor que o Caminhante faz, neste sentido, é permanecer dentro do não-julgamento e ater-se apenas às questões relativas à constância e não à duração

O julgamento leva o Caminhante a caminhos tortuosos, regidos pela polarização, tema da segunda estrofe:

A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e o tom são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro

Quando Lao Tse diz: "A existência e a inexistência geram-se uma pela outra", ele já está nos levando a adotarmos, a assumirmos uma atitude de não-julgamento ditado pela impermanência de tudo no universo: a eterna mutação é a única não-mutação possível dentro do Tao da natureza.

Ao longo da segunda estrofe, Lao Tse vai nos mostrando as questões que poderiam ser vistas sob a ótica do julgamento mas que no entanto, são apenas questões impermanentes que vão se modificando de acordo com o espaço e o tempo – não sendo, portanto, polaridades dicotômicas entre si, e sim, complementações que correspondem às atuações do Yin e do Yang do Tao do Universo.

O Yin é a manifestação da noite, por exemplo, dentro de nossa vida cotidiana em nosso Planeta. É a Não-Luz.

O Yang é manifestação do dia, por exemplo, dentro de nossa vida cotidiana em nosso Planeta. É a Luz.

Luz e Não-Luz, em todo o universo, estão sempre em processo de eterna mutação. Essa Luz e essa Não-Luz podem ser objetivadas através da Mandala do Tai Chi, ou seja, o enlace eterno entre o Yin e o Yang.

Sempre que o Yin atinge sua energia máxima, dá lugar ao Yang, que atingindo sua energia máxima, dá lugar ao Yin, que atingindo sua energia máxima, dá lugar ao Yang..... e assim infinitamente, dentro da impermanência de tudo no universo, a eterna mutação.

Portanto
O Homem Sagrado realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra


Nessa terceira estrofe, em poucas palavras, Lao Tse nos sintetiza o porquê, o sentido intrínseco das duas primeiras estrofes deste Capítulo 2: o não-julgamento e a impermanência.

Sendo o não-julgamento uma Virtude, Te, e a impermanência uma realização do Tao, O Caminho, o que resta ao Homem Sagrado – aquele que caminha seu Caminho em busca da iluminação e infinitude de sua consciência e iluminação e infinitude de sua vida – o que resta a esse Homem que trilha seu Caminho do Tao é viver a vida de forma natural, como ela é, sem julgamentos nem apegos, apenas vivendo o cotidiano simplesmente, deixando a natureza ser da forma como ela se apresenta no momento, tomando as decisões sobre os eventos que se apresentam no momento sem grandes pré-ocupações ou julgamentos acerca, fundamentalmente, do futuro – que é sempre regido pelo Tao da natureza. Realizando aquilo que tem que realizar simplesmente porque tem que realizar.

Esse conceito é deveras importante dentro do Te, A Virtude: a não-ação, o Wu Wei. Não-ação em nenhuma circunstância significa não agir. Não. Significa porém, agir quando é preciso agir e fazer isso naturalmente, de acordo com as circunstancias do momento. Assim como o sol brilha e aparece todos os dias para nós, iluminando nossas vidas.... assim como a chuva abençoada cai nos renovando a vida, enchendo as minas, as nascentes, os rios, os lagos, os mares....

Outro conceito fundamental é a não-palavra: essa questão se relaciona com o não se enveredar por caminhos demais tortuosos e pouco profícuos. O Homem Sagrado é aquele que se atém ao que é verdadeiramente importante, ou seja, aquilo que é constante, eterno – essa é a não-palavra. Tudo aquilo que se relaciona com a duração, que é impermanente, é então considerado a palavra.

Também a não-palavra tem o sentido de palavra sem intenção. Sobre a questão do que significa ‘intenção’, Lao Tse prossegue:

Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam.

Na quarta e última estrofe, Lao Tse nos coloca diante do grande drama da vida e seu porquê: o que significa nossa encarnação e o fato de o homem possuir a mente e poder desenvolvê-la, criar uma cultura, uma sociedade, vivenciar a natureza do universo como não apenas parte desse universo como também construtor do mesmo através uma vida de trabalho e realizações?
Nesse ponto, retomamos às estrofes anteriores e suas lições sobre não-julgamento, impermanência da duração, permanência da constância, não-ação, não-palavra... Como também não devemos nos esquecer da grande Virtude, Te, de Caminhar o Caminho do Tao sempre agindo com Humildade – independente daquilo que nossa cultura massiva e nossa sociedade esmagadora nos impele a ser e agir durante nossa vida.

Nossa cultura e nossa sociedade nos quase obrigam a realizarmos algo pretensamente grandioso em nossas vidas – e sobretudo algo dentro do critério da duração e da impermanência – e, aparentemente e superficialmente, querem nos fazer acreditar que essa é uma vida de plenitude de trabalhos e realizações e ainda mais, e muito mais, querem que sempre busquemos ( e por isso nos esforcemos ao máximo) os louros da glória e do reconhecimento públicos de nosso valor (?!).

O que Lao Tse nos diz na última estrofe do Capítulo 2 e estará nos dizendo ao longo de sua obra, é que, bem ao contrário do que no parágrafo acima foi dito, o trabalho e as realizações do homem e do Homem devem se prender apenas ao próprio trabalho e às próprias realizações – porque estamos encarnados nesse planeta de Trabalho e de Iluminação para efetuarmos essas questões. Mas, na realidade, nenhum trabalho ou realização que fazemos de fato nos pertencem.... Não. Não somente não nos pertencem pessoalmente quanto também não pertencem apenas ao resto dos seres no universo.... Porque tudo no universo apenas é e apenas dever ser da forma que é e que deve ser. Esta é a naturalidade, a simplicidade, a humildade do próprio universo que nada cria para si mesmo, apenas cria e não pede qualquer recompensa ou reconhecimento por isso.

Nosso sol nos dá sua luz de vida e de sobrevivência porque ele é um sol... e esse é o seu trabalho e essas são suas realizações. A chuva cai porque seu trabalho é cair e suas realizações são dadivosas, certamente, mas simplesmente porque assim são e devem ser. Existe em todo o universo uma vivência real de trabalho e de realizações que é plenamente impessoal: ela apenas é como dever ser e enquanto deve ser.... ou seja, também nosso sol continua sua vida de queimar seu combustível interior até o momento em que não haja mais combustível para ser queimado, e ele entre em outro processo de mutação que haverá de inchá-lo de tal maneira que quase se encontrará com nosso planeta e após isso, deverá desinchar de tal maneira que se tornará uma estrelinha amorfa e cinzenta, sem antes ter soltado no espaço um chumaço de gases que um dia será observado emocionadamente por alguém com um potente telescópio, vivendo em outro planeta, em outro sistema solar que ainda esteja vivendo seu trabalho e suas realizações!

Então, na quarta estrofe, Lao Tse nos diz para sim, vivermos nossa vida de trabalho e de realizações no Planeta Terra mas que não nos contentemos e melhor ainda, não ambicionemos os louros da gloria e do reconhecimento público em relação á nós mesmos, pobres mortais. Ao invés disso, por que não nos contentarmos e ambicionarmos os louros da floria e do reconhecimento universais em relação ao nosso trabalho espiritual, ou seja, ao nosso Caminho sendo trilhado em busca de nossa Iluminação e posterior Imortalidade, nossa Liberação?

Para tanto, Lao Tse menciona o apego e o não-apego. O apego ao corpo físico, que é material e impermanente, mutável.... não vale a pena. É algo apenas transitório, pertence ao campo da duração.... (como pode o sol ter apego à sua forma atual se esta todo o tempo está em mutação – mesmo que ainda não visível – mas que certamente em um futuro longínquo será uma realidade? Uma transformação inequívoca dentro da eterna mutação do universo?)

O não-apego ao corpo físico e seus trabalhos e realizações reconhecidos culturalmente e socialmente e publicamente é aquilo que Lao Tse nos ensina. Realizar o trabalho sim, mas realizá-lo dentro da não-ação, realizá-lo porque é imperioso que seja realizado. E pronto.

E justamente por realizarem sem apego
Não passam.

Lao Tse, então, emenda e conclui que, apenas através da realização do corpo espiritual – dentro da Alquimia do Caldeirão – é que o Homem Sagrado pode ingressar na Imortalidade, na Constância – mesmo que ainda fazendo parte do eterna mutação do Tao do universo.

O corpo físico, esse corpo tão cultuado pela cultura e pela sociedade como o maior instrumento de nossa encarnação para a realização de nosso trabalho de vida, é algo que tem seu fim, que termina. A grande importância do corpo físico, de nossa encarnação como homem possuidor de mente que se desenvolve até poder expandir sua consciência à sua infinitude... é o fato desse corpo, materializado, nos conter o espírito, que é imaterial. E será sempre o espírito – aliado à infinitude e expansão da consciência - quem buscará a eternidade, a Iluminação, a Imortalidade, a Liberação.... e não o corpo físico em si.

O corpo espiritual, ou Corpo de Luz, que não tem fim, ao contrário, ele permanece em eterna mutação dentro da constância da Luz do Tao do universo, esse sim, "não passa" (como nos ensina Lao Tse), ou seja, não termina, continua, alcança a infinitude da vida aliada à infinitude da consciência – esse é o Caminho da Iluminação e, fundamentalmente, o Caminho da Imortalidade.

Com um abraço estrelado,

Janine Milward

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TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao

Capítulo 2

Interpretação de Janine Milward

A tradução dos Capítulos do Tao Te Ching foi realizada por Wu Jyh Cherng,
do chinês para o português
e foi primeiramente publicada pela Editora Ursa Maior
e hoje é publicada pela Editora Mauad, São Paulo.

Na Editora Mauad, São Paulo, Brasil,
encontra-se  a realização da publicação
das interpretações de Wu Jyh Cherng
acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao Tse, o Tao Te Ching